Quinta-feira, Outubro 15, 2009

.Fluxo de consciência.II

os textos fluxos de consciência às vezes me ocorrem, eles nascem dessa necessidade de falar de tudo e do nada ao mesmo tempo.sem conseguir inserir coisa alguma em texto de qualidade, não conseguir mais escrever nada, a regra é escrever tudo que me vem a cabeça, é não pontuar, é ser fácil e difícil, tudo ao mesmo tempo, e chega de metalinguistica. eu sonho muito, muito e muitas coisas misturadas, os melhores sonhos são aqueles da manhã, quando consigo dormir até bem tarde, os sonhos ficam realmente malucos, não tem melhor palavra para definir e sempre foi assim, não controlo meus sonhos, apenas assisto, uma amiga hoje me disse que controla os dela, deve ser estranho. no momento sinto uma dor terrível nos labirintos, chega dói o crânio, não sei do que se trata essa dor, penso como sempre que vou morrer, queria que se importassem mais com o fato que posso mesmo morrer e que todos podemos e que de verdade, abraçassem hoje o que pode não estar aqui amanhã, tenho acessos de saudades e de amor, não sei ser diferente, não sei aniquilar nada, faz meses comecei o projeto amar menos dentro de mim, pra ver se assim sofria menos também, às vezes da certo, às vezes não, e sério, esse papo de que tudo pode acabar hoje, essa filosofia que sigo já cansou até a mim mesma, de verdade, sem querer nada, eu realmente me canso de mim às vezes, me canso das minhas ideias estúpidas, dos meus medos mais estúpidos ainda, da minha sensibilidade a flor da pele, passar 24 horas consigo mesmo às vezes é um saco, deve ser por isso que a gente sonha com tudo menos com a gente mesmo, nas vidas de nós mesmos, fazendo o que a gente mesmo sempre faz, às vezes eu queria me libertar de mim, desses meus vícios, dessas virtudes ignoradas, dessas necessidades e dessa impassibilidade absurda. dói, dói muita coisa e no segundo seguinte não dói mais, 'o presente tem uma vida muito curta', me disseram, e isso encerrou todo meu pensamento sobre o tempo, quando vi a árvore de natal no centro da cidade, aquelas luzes que remetem a tantas memórias, memórias de todos os meus 20 anos anteriores diante decorações natalinas, é tudo sempre o mesmo, é tudo sempre novo, e o tempo, esse não para mesmo, não importa quantas canções cantem sobre isso, quanta gente diga isso, resultado de um estado de perplexo absurdo, na verdade estamos o tempo todo em um estado de choque terrível em relação ao tempo, é quase como o primeiro grande trauma de ter nascido, não aceitamos o tempo, mas aprendemos a conviver, é como aquela minha imaginação infantil de cair eternamente, viver é cair eternamente sem poder parar, voltar, frear, nada, é todo tempo caindo, só esperando o chão que um dia virá...e aí acabou. e o respirar, nos acostumamos também, mas que esforço é esse? tantos músculos trabalhando, vinte quatro horas diárias durante todo o tempo dessa queda livre sem recursos, sempre que penso no respirar sinto falta de àr, já passei dias com falta de ár só porque não conseguia controlar o pensar no respirar, não conseguia esquecer, e sempre que penso no escrever, sinto agonia, não posso parar de respirar, mas posso parar de escrever, então eu paro, agora.enquanto eu estiver caindo, quem pode me dar a mão? um sorriso e um abraço eu também não dispenso. ausência daqueles que já não se importam mais, presença eterna até o amanhã daqueles que me fazem bem.só isso que peço hoje.

lá vem, lá vem de novo(...)e o medo está lá sempre.

Sexta-feira, Outubro 02, 2009

.bloqueio.

.tem um bloqueio, não consigo mais escrever com a frequência de antes, não que isso faça falta de fato pra alguém, como o blog do Dimi, que me faz uma puta falta, mas é estranho largar isso aqui, esquecer que existe, sei lá.

.seja muito trabalho, as aulas de clown, minha bicicleta que agora eu sei como faz pra andar nela, as aulas de francês, os novos planos, as preocupações e ansiedades, seja o que for que tenha me impedido de vir aqui me pronunciar, isso acaba agora, mas não vou usar minhas palavras nem nada, vou é escrever aqui as coisas mais batutas que ouvi nesses últimos tempos.

E ele disse todo serelepe,

"mas tá na moooooodaaaaaaa!!!"
meu aluno Gabriel, 10 anos, ao questionarem suas calças cheias de furos e rasgos por todos os lados.

"imagina se durante um show um musico parasse toda vez que ele errasse uma nota, seria um caos, ele tem que improvisar, continuar"
meu amigo Elton me ensinando a andar de bicicleta.

" e a velhinha pergunta pro filho : Como é mesmo o nome daquele alemão que me deixa louca??- o filho responde - Alzheimer mamãe"
e o André me contou essa piada.

"vocês só serão bons clowns quando se aceitarem como seres humanos"
meu professor de clown, Tercio Emo, após nosso exercício de resgate a infância.

"toca Raul"
Zach Condon, durante show do Beirut em São Paulo.

"me ensinou a abraçar, o que guardo e pratico todos os dias, seja quem for, homem ou mulher"
um amigo que por muito tempo não vejo, sobre o que eu ensinei a ele.

"Que bom que a gente existe ao mesmo tempo"
Dimi mandou essa frase em uma foto para os amigos, eu recebi também. Sorriso lateral.

E assim, me despeço desse texto...

que bom que a gente existe ao mesmo tempo.

eu, você, todos nós.

Domingo, Setembro 13, 2009

.a friday smile.

Ta aí que às vezes nos bate um sentimento terrível que o mundo é uma merda, uma assustadora bomba relógio que pode explodir a qualquer momento, se pensamos demais entramos naqueles sentimentos existencialistas que ninguem presta, todo mundo é mal, tudo está perdido, que não tem sistema político que funcione, que todo mundo é currupto e corruptível e que não, não teremos filhos, pois 'não transmitiremos a ninguem o legado de nossa miséria'.

E aí de repente, como em um estopim todo esse sentimento se desfaz, se desfaz ao percebermos que existem tantas pessoas supimpas que criam coisas geniais, músicas eternas, conversas, piadas, momentos, números circenses, arte, esculturas e museus de todo tipo. Ao pensar nessas pessoas a vida ganha sentido, a vida vive.

Eu tenho uma vasta coleção mental de momentos que me fizeram ter certeza que no meio de todo esse fatos repugnantes de nossa história diária viver é bom, o mais recente deles foi nessa sexta-feira dia 11 de setembro, no show do Beirut, a banda que já me acompanha faz dois anos e que dá cor e alegra meus caminhos por aí.

Minha certeza de que estava alí, na Via Funchal, diante de um grupo de seis pessoas que me ajudam a mudar a opinião sobre o mundo, que se dedicaram para aprender a tocar intrumentos e ritmos que preenchem um espaço todo de um sentimento colorido, essa certeza veio quando humildemente eles convidaram todos do lugar a chegar o mais próximo que desse do palco, quando minha distancia de cinquenta metros passou para apenas um e minha emoção alcançou o infinito.

Desse momento do convite guardo muitas memórias e dois videos terríveis, mais ainda sim, videos bons e contradições fazem todo sentido. :)





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Those were our times, those were our times

And I will love to see that day
That day is mine

Sim, aquele dia é meu, pra sempre.

Segunda-feira, Setembro 07, 2009

.Ei gênio da lâmpada!.

Quando era criança e tinha a típica viagem pueril dos desejos a serem concebidos por um mago da lâmpada ou coisa que o valha, pedia coisas como uma casa feita de chocolate, uma piscina de balas e canetas e cadernos infinitos, quando perguntei a ela, no entanto, que dormiu em minha casa noite dessas, os desejos eram tão autruistas e nobres que eu senti leve vergonha de meus pedidos infantis.

Nada que pediu era de fato para ela, todos desejos marcados por aquele tipo de criança que passa pelo doloroso processo da ausência da infância, o assalto mais vil.
Senti-me impotente pois tudo que pude fazer foi conta-la uma historia para o antes de dormir, tudo inventado na hora, entralecei princesas, ratos falantes enfeitiçados com batatas e poneis de lágrimas mágicas, e ela vibrou com tudo aquilo e ainda me ajudou a concluir alguns furos de história.

Antes de dormir uma promessa que pedirei baixinho para sempre que ela cumpra, mesmo quando já não puder mais ve-la.

Depois de tudo só pude pensar naquela questão sobre dinheiro trazer ou não trazer felicidade, parece ultimamente já tão óbvio pra todo mundo que sim, a felicidade esta condicionada a todos esses números, mas eu não acredito.

Dinheiro pode sim comprar situações que possam trazer felicidade, mas não a felicidade em si, por exemplo, pode pagar o bar, mas não as boas piadas e conversas de meus amigos, pode comprar o filme mas não minha capacidade de entede-lo pode pagar o vinho, mas não a companhia, pode pagar a viagem mas não as pessoas que encontrarei e nem minha capacidade de me divertir com elas e assim vai uma infinidade de exemplos bons.

Dinheiro jamais poderá pagar as tardes de conversa com pessoas amigas, jeitos excêntricos, fraternidade, as risadas , a bondade e respeito, os abraços, viagens mentais, piadas sarcásticas e ironicas, conclusões, memórias de uma infancia feliz, beijos, abraços e afagos nem ao menos comentários sinceros nesse blog.

O que mais perturba é perceber que às vezes quem mais ensinou esse tipo de coisa pra gente é quem mais esqueceu disso.

Tente outra vez.

Sexta-feira, Agosto 28, 2009

.Travessia.

Então ela estava indo encontrar com sua amiga para almoçarem juntas, se encontrariam na porta do colégio, tinham muito assunto para colocarem em dia, antes aquela travessia corriqueira, uma avenida de três vias, nada como esperar o sinal verde de pedrestes para torna-la fácil e esperou.
A espera não foi longa mas sempre parece ser, ela olhou fixadamente o bonequinho do marcador vermelho, torcendo que logo ficasse verde, ele a guiava como um mentor, ao ficar verde foi a ele que seguiu sem se importar com mais nada, um carro fugitivo não se importara no entanto roubando-lhe o almoço daquele dia parcialmente ensolarado.
Como toda cena de atropelamento, foi algo dramático, acabou com a apetite de todos os outros que atravessavam em direções opostas, o grito, a velocidade, o eterno som do carro batendo contra o corpo humano, sua imaginação sempre fora aguçada, antes de tudo já tinha imaginado cena semelhante muitas vezes, como seria se um dia acontecesse mesmo, qual seria a feição das pessoas, o barulho ensurdecedor mesmo que não fosse tão fisicamente alto, é sempre algo profundo que silencia e então aconteceu, já não era mais só o imaginar da garota com sonhos e infinitos porém só mais massa corporea no meio da multidão das calçadas paulistanas.
No chão, fazendo simetria com as faixas gastas de pedestres se encontravam livros e histórias, cadernos e apostilas para estudar e estudar e saber mais pois assim lhe contaram desde o inicio, a fazia bem, mas nem tudo que sabia era o que lhe interessava saber, mas eram o que diziam repetidamente a cada esquina. O protocolo de um curso de coisa qualquer voara de seu bolso, a fita de cabelo, todo zelo do presente de um amigo timido em seu último aniversário, um mp3 ainda gritava com a voz de uma música qualquer, já não mais importava.
Em volta a multidão já se formava, tipica cena do teatro diário das ruas da cidade, uns por pena, outros por ocio, outros por coisa alguma.
No dia seguinte os carros voltavam a circular sobre a mancha de sangue, algumas partículas desse sangue vermelho de forma leve e imperceptível se agarravam às rodas mais pesadas, levaram para diversos caminhos pedaços dela que já não mais estava alí, e não fazia mesmo mais diferença. O dia já era outro, o sol brilhava mais, a chuvinha rala da tarde irritou quem saiu sem guarda-chuva. E ela nunca aprendeu a tocar o violão que ganhara de herança do seu avô.




Sometimes I wonder mate, if we had known those days weren't forever, would we have enjoyed it better?

Quinta-feira, Agosto 20, 2009

.Minha cabeça de papelão.

Abro o espaço do meu blog para divulgar um dos contos mais geniais que já li na vida e que tive a sorte, quando fiz aulas de teatro com a Paula de adapta-lo de uma forma muito divertida para os palcos. Saudade, muita saudade dessas aulas.
O conto é longo, mas vale a pena gente, dou minha palavra que vale.:)

O homem de cabeça de papelão

por João do Rio


No País que chamavam de Sol, apesar de chover, às vezes, semanas inteiras, vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social.

O País do Sol, como em geral todos os países lendários, era o mais comum, o menos surpreendente em idéias e práticas. Os habitantes afluíam todos para a capital, composta de praças, ruas, jardins e avenidas, e tomavam todos os lugares e todas as possibilidades da vida dos que, por desventura, eram da capital. De modo que estes eram mendigos e parasitas, únicos meios de vida sem concorrência, isso mesmo com muitas restrições quanto ao parasitismo. Os prédios da capital, no centro elevavam aos ares alguns andares e a fortuna dos proprietários, nos subúrbios não passavam de um andar sem que por isso não enriquecessem os proprietários também. Havia milhares de automóveis à disparada pelas artérias matando gente para matar o tempo, cabarets fatigados, jornais, tramways, partidos nacionalistas, ausência de conservadores, a Bolsa, o Governo, a Moda, e um aborrecimento integral. Enfim tudo quanto a cidade de fantasia pode almejar para ser igual a uma grande cidade com pretensões da América. E o povo que a habitava julgava-se, além de inteligente, possuidor de imenso bom senso. Bom senso! Se não fosse a capital do País do Sol, a cidade seria a capital do Bom Senso!

Precisamente por isso, Antenor, apesar de não ter importância alguma, era exceção mal vista. Esse rapaz, filho de boa família (tão boa que até tinha sentimentos), agira sempre em desacordo com a norma dos seus concidadãos.

Desde menino, a sua respeitável progenitora descobriu-lhe um defeito horrível: Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. Enquanto usara calções, os amigos da família consideravam-no um enfant terrible, porque no País do Sol todos falavam francês com convicção, mesmo falando mal. Rapaz, entretanto, Antenor tornou-se alarmante. Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim, a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrario do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam.

Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrário. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. Aliás, só para ela, para os olhos maternos. Porque quando Antenor resolveu arranjar trabalho para os mendigos e corria a bengala os parasitas na rua, ficou provado que Antenor era apenas doido furioso. Não só para as vítimas da sua bondade como para a esclarecida inteligência dos delegados de polícia a quem teve de explicar a sua caridade.

Com o fim de convencer Antenor de que devia seguir os tramitas legais de um jovem solar, isto é: ser bacharel e depois empregado público nacionalista, deixando à atividade da canalha estrangeira o resto, os interesses congregados da família em nome dos princípios organizaram vários meetings como aqueles que se fazem na inexistente democracia americana para provar que a chave abre portas e a faca serve para cortar o que é nosso para nós e o que é dos outros também para nós. Antenor, diante da evidência, negou-se.

— Ouça! bradava o tio. Bacharel é o princípio de tudo. Não estude. Pouco importa! Mas seja bacharel! Bacharel você tem tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo lisonjear, é a ascensão: deputado, ministro.

— Mas não quero ser nada disso.

— Então quer ser vagabundo?

— Quero trabalhar.

— Vem dar na mesma coisa. Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: dinheiro, prestígio e posição. Desde que você não as tem, mesmo trabalhando — é vagabundo.

— Eu não acho.

— É pior. É um tipo sem bom senso. É bolchevique. Depois, trabalhar para os outros é uma ilusão. Você está inteiramente doido.

Antenor foi trabalhar, entretanto. E teve uma grande dificuldade para trabalhar. Pode-se dizer que a originalidade da sua vida era trabalhar para trabalhar. Acedendo ao pedido da respeitável senhora que era mãe de Antenor, Antenor passeou a sua má cabeça por várias casas de comércio, várias empresas industriais. Ao cabo de um ano, dois meses, estava na rua. Por que mandavam embora Antenor? Ele não tinha exigências, era honesto como a água, trabalhador, sincero, verdadeiro, cheio de idéias. Até alegre — qualidade raríssima no país onde o sol, a cerveja e a inveja faziam batalhões de biliosos tristes. Mas companheiros e patrões prevenidos, se a princípio declinavam hostilidades, dentro em pouco não o aturavam. Quando um companheiro não atura o outro, intriga-o. Quando um patrão não atura o empregado, despede-o. É a norma do País do Sol. Com Antenor depois de despedido, companheiros e patrões ainda por cima tomavam-lhe birra. Por que? É tão difícil saber a verdadeira razão por que um homem não suporta outro homem!

Um dos seus ex-companheiros explicou certa vez:

— É doido. Tem a mania de fazer mais que os outros. Estraga a norma do serviço e acaba não sendo tolerado. Mau companheiro. E depois com ares...

O patrão do último estabelecimento de que saíra o rapaz respondeu à mãe de Antenor:

— A perigosa mania de seu filho é por em prática idéias que julga próprias.

— Prejudicou-lhe, Sr. Praxedes?

Não. Mas podia prejudicar. Sempre altera o bom senso. Depois, mesmo que seu filho fosse águia, quem manda na minha casa sou eu.

No País do Sol o comércio ë uma maçonaria. Antenor, com fama de perigoso, insuportável, desobediente, não pôde em breve obter emprego algum. Os patrões que mais tinham lucrado com as suas idéias eram os que mais falavam. Os companheiros que mais o haviam aproveitado tinham-lhe raiva. E se Antenor sentia a triste experiência do erro econômico no trabalho sem a norma, a praxe, no convívio social compreendia o desastre da verdade. Não o toleravam. Era-lhe impossível ter amigos, por muito tempo, porque esses só o eram enquanto. não o tinham explorado.

Antenor ria. Antenor tinha saúde. Todas aquelas desditas eram para ele brincadeira. Estava convencido de estar com a razão, de vencer. Mas, a razão sua, sem interesse chocava-se à razão dos outros ou com interesses ou presa à sugestão dos alheios. Ele via os erros, as hipocrisias, as vaidades, e dizia o que via. Ele ia fazer o bem, mas mostrava o que ia fazer. Como tolerar tal miserável? Antenor tentou tudo, juvenilmente, na cidade. A digníssima sua progenitora desculpava-o ainda.

— É doido, mas bom.

Os parentes, porém, não o cumprimentavam mais. Antenor exercera o comércio, a indústria, o professorado, o proletariado. Ensinara geografia num colégio, de onde foi expulso pelo diretor; estivera numa fábrica de tecidos, forçado a retirar-se pelos operários e pelos patrões; oscilara entre revisor de jornal e condutor de bonde. Em todas as profissões vira os círculos estreitos das classes, a defesa hostil dos outros homens, o ódio com que o repeliam, porque ele pensava, sentia, dizia outra coisa diversa.

— Mas, Deus, eu sou honesto, bom, inteligente, incapaz de fazer mal...

— É da tua má cabeça, meu filho.

— Qual?

— A tua cabeça não regula.

— Quem sabe?

Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. Era uma rapariga chamada Maria Antônia, filha da nova lavadeira de sua mãe. Antenor achava perfeitamente justo casar com a Maria Antônia. Todos viram nisso mais uma prova do desarranjo cerebral de Antenor. Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional.

— Só caso se o senhor tomar juízo.

— Mas que chama você juízo?

— Ser como os mais.

— Então você gosta de mim?

— E por isso é que só caso depois.

Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido.

Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma "relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão". Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo.

— Traz algum relógio?

— Trago a minha cabeça.

— Ah! Desarranjada?

— Dizem-no, pelo menos.

— Em todo o caso, há tempo?

— Desde que nasci.

— Talvez imprevisão na montagem das peças. Não lhe posso dizer nada sem observação de trinta dias e a desmontagem geral. As cabeças como os relógios para regular bem...

Antenor atalhou:

— E o senhor fica com a minha cabeça?

— Se a deixar.

— Pois aqui a tem. Conserte-a. O diabo é que eu não posso andar sem cabeça...

— Claro. Mas, enquanto a arranjo, empresto-lhe uma de papelão.

— Regula?

— É de papelão! explicou o honesto negociante. Antenor recebeu o número de sua cabeça, enfiou a de papelão, e saiu para a rua.

Dois meses depois, Antenor tinha uma porção de amigos, jogava o pôquer com o Ministro da Agricultura, ganhava uma pequena fortuna vendendo feijão bichado para os exércitos aliados. A respeitável mãe de Antenor via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porem, estimavam-no, e os companheiros tinham garbo em recordar o tempo em que Antenor era maluco.

Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antônia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. Outras Marias ricas, de posição, eram de opinião da primeira Maria. Ele só tinha de escolher. No centro operário, a sua fama crescia, querido dos patrões burgueses e dos operários irmãos dos spartakistas da Alemanha. Foi eleito deputado por todos, e, especialmente, pelo presidente da República — a quem atacou logo, pois para a futura eleição o presidente seria outro. A sua ascensão só podia ser comparada à dos balões. Antenor esquecia o passado, amava a sua terra. Era o modelo da felicidade. Regulava admiravelmente.

Passaram-se assim anos. Todos os chefes políticos do País do Sol estavam na dificuldade de concordar no nome do novo senador, que fosse o expoente da norma, do bom senso. O nome de Antenor era cotado. Então Antenor passeava de automóvel pelas ruas centrais, para tomar pulso à opinião, quando os seus olhos deram na tabuleta do relojoeiro e lhe veio a memória.

— Bolas! E eu que esqueci! A minha cabeça está ali há tempo... Que acharia o relojoeiro? É capaz de tê-la vendido para o interior. Não posso ficar toda vida com uma cabeça de papelão!

Saltou. Entrou na casa do negociante. Era o mesmo que o servira.

— Há tempos deixei aqui uma cabeça.

— Não precisa dizer mais. Espero-o ansioso e admirado da sua ausência, desde que ia desmontar a sua cabeça.

— Ah! fez Antenor.

— Tem-se dado bem com a de papelão? — Assim...

— As cabeças de papelão não são más de todo. Fabricações por séries. Vendem-se muito.

— Mas a minha cabeça?

— Vou buscá-la.

Foi ao interior e trouxe um embrulho com respeitoso cuidado.

— Consertou-a?

— Não.

— Então, desarranjo grande?

O homem recuou.

— Senhor, na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual, como perfeição, como acabamento, como precisão. Nenhuma cabeça regulará no mundo melhor do que a sua. É a placa sensível do tempo, das idéias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours.

Antenor ia entregar a cabeça de papelão. Mas conteve-se.

— Faça o obséquio de embrulhá-la.

— Não a coloca?

— Não.

— V.EX. faz bem. Quem possui uma cabeça assim não a usa todos os dias. Fatalmente dá na vista.

Mas Antenor era prudente, respeitador da harmonia social.

— Diga-me cá. Mesmo parada em casa, sem corda, numa redoma, talvez prejudique.

— Qual! V.EX. terá a primeira cabeça.

Antenor ficou seco.

— Pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão.

E, em vez de viver no País do Sol um rapaz chamado Antenor, que não conseguia ser nada tendo a cabeça mais admirável — um dos elementos mais ilustres do País do Sol foi Antenor, que conseguiu tudo com uma cabeça de papelão.

Quarta-feira, Agosto 12, 2009

Dia improvável - Escola de Samba

Em uma quadra de escola de samba todo mundo é igual, só tem cores, a batucada, a devoção e o samba no pé, se não o ritmo na mão.
Em uma escola de samba não importa se você é mocidade, rosas de ouro, mangueira, você vai ser bem bem vindo onde estiver, com samba no pé ou sem, negro ou não, branco ou japonês. É você e o samba, o samba e você. E tudo isso.

Um dia improvável porque tempos atrás eu jamais pensei em ir a uma quadra de escola de samba, é a paixão alheia de pessoas queridas, o tempo que fecha feridas e abre o coração, a mente e tudo, que me fizeram seguir contente em direção a batucada da bateria de uma escola de samba, com o sangue pulsando, a analise de uma cultura brasileira tão misturada, tão completa. Antes no metro o desfile de todos aqueles bolivianos em terras brasileiras, já ouvi gente dizer que o Brasil não tem cultura própria, não sabem do que falam, em um movimento antropofágico natural a cultura brasileira é tão única e rica e tão nossa, tão nossa que é de todo mundo e é na escola de samba que podemos cantar sobre tudo isso. E lá vamos nós vivendo um samba enredo em uma esquina da cidade, em uma praça, nas avenidas multicoloridas, com samba no pé ou não, sem ritmo ou com.

Não há nada errado em ser feliz.

Sexta-feira, Agosto 07, 2009

.buscas curiosas.

Uma coisa é fato, todo mundo que coloca algum sistema de identificação de visitantes em seu site/blog/sei lá o que mais, vai ter um dia as ganas de escrever sobre como muitas pessoas chegam a acessar a sua página.
É sempre uma diversão quando alguém chega por aqui no jennytangerine.blogspot através de alguma busca feita no google ou site de busca que o valha.
Eu que geralmente tento ser objetiva nas minhas buscas interneticas sempre me intrigo quando alguem buscou algo como "o ônibus mágico da rua mais mágica ainda em new york", tá exagerei, mas é sério que as buscas seguem esse modelo, quase esse.
E se procurou por 'Ônibus mágico' é aqui que você vai chegar, tudo por causa de um texto que escrevi uma vez sobre um ônibus colorido que achei mágico, é impressionante o número de pessoas que chegaram aqui por causa de buscas relacionadas a ônibus mágicos. (:

Hoje quase me entristeço com certa busca, a pessoa digitou no google :
"quero lembrar-me do meu pai", viajei na história, quem procuraria algo assim, é que eu imagino demais, às vezes até fico cansada, pude ver alguém que perdeu o pai e sei lá, está se esquecendo, não sei o que dizer, mas o que mais poderia ser? Nunca escrevi sobre isso, mas alguma palavra a fez cair aqui. Essas pessoas nunca ficam mais que alguns segundos, pena não pude ajudar. Não preciso escrever sobre como não esquecer meu pai afinal. Fa-to.

Logo depois então ri com outra busca :
"hey dude oi garoto" rs

Bem, que continuem as buscas e se quiser fique mais que 00:00 segundos. Sério.

Sábado, Agosto 01, 2009

.a presença deles.

Ela gostava muito de bater um papo sobre a autonomia das pernas com Machado de Assis, sempre que podia ia filosofar sobre o amar com Renato Russo, discutir cinema com François Truffaut não ia nada mal, se o Bazin estivesse junto era ainda melhor, cantarolar pelas ruas da cidade luz ao lado do Garrel fazia muito bem ao seu coração.

Passou muito tempo viajando pela Europa com Zach Condon e isso ampliou muito sua visão de mundo, não podia deixar de discutir os efeitos da didatura brasileira com Chico Buarque, nunca entendeu melhor a questão nazista como quando conversou sobre o assunto com Chaplin e nas ruas de New York, ao lado de Salinger e Holden se questionava para onde iam os patos do lago do Central Park durante o inverno.

- Dentro de mim um lunático também canta - confessou ao Jonsi enquanto este se preparava para ir mais uma vez ao palco com Sigur Rós. A rosa da vitória nunca fora tão vermelha. Jonsi sorriu e falou algo em sua língua que ela não entendia, mas sabia que era muito bonito.

Quando se sentia triste, era como se estivesse caminhando em uma ponte sobre águas turbulentas, aprendeu a lição com Simon, Garfunkel disse muitas coisa naquela noite também enquanto caminhavam sorridentes em direção a Scarabough Fair, mas por vezes apreciavam apenas o som do silêncio, um silêncio bom, daquela vez sem culpa.

Exupery já havia lhe dito durante aquela viagem em seu avião:
- Será eternamente responsável por aquilo que cativas e a todos seus amigos, se eles chegarem as quatro, desde as três comece a ser feliz.

Nunca se esquecia disso enquanto no mês de março as águas fechavam o verão e uma promessa de vida restava em seu coração, Elis e Tom nunca deixavam de lembra-la dessa esperança.

Não acreditava muito no Deus criado pelos homens, mas se ele te comprasse uma Mercedez Benz não reclamaria, o daria de presente a sua amiga Janis por toda a companhia, mesmo que ambas não se importassem quase nada com bens materiais desse tipo.

Um dia lhe disseram que a vida era vazia, nunca pode compreender tal afirmação, era muito longe dela o vazio descrito por qualquer pessoa com todos eles ao seu lado, preferiu ir discutir a existência com Mafalda e Quino aquela noite.

E antes de dormir, sempre pensava consigo mesma "não, eu não me arrependo de nada", já havia lhe cantado algo assim sua grande amiga Edith.

E não importava o que o amanhã trouxesse, ela estaria lá, com braços e olhos abertos. Porque enquanto a guitarra de seus amigos de Liverpool gentilmente chorava ela sonhava em ir para strawberry fields forever.

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Os links levam a presença deles, alguns deles todos.

Terça-feira, Julho 28, 2009

.Enquanto isso no mundo dos clichês.

Se tem um clichê que me irrita um bocado é o tal:

"Se liberarem o aborto vai virar festa, todo mundo vai fazer, essas menininhas vão fazer adoidado sem se precaver afinal vai ser fácil tirar"

Sim, sim meu caro, abortar vai virar moda, abortar vai ser a coisa mais confortável do mundo. Na cabeça de quem diz isso deve existir uma visão de mundo bem assim:

Depois da legalização

- Ai querido, estou gravida !!
- Ah, amanhã a gente passa no postinho e você aborta, sabe que não dá pra ter mais um.
- Sim, mas vamos cedo pois ainda quero ir pro almoço na casa da mamãe hein.
- Tudo que você quiser amor.

- Ai, você tem camisinha?
- Gata, nem tenho.
- Ahh sem crise, qualquer coisa eu aborto, já fiz três só esse mês.
- É, minha ex fazia toda semana.
- Yeah, abortar é muito legal, uma alegria que me dá.

Ahhh vah né Brasil. Quem disse que seria assim? Quem disse que abortar é uma coisa extremamente comoda e feliz, que as mulheres fariam todo dia porque foi liberado? Cada um é dono de sua consciência. Não sei se faria um aborto, deve ser mega traumático, mas sou extremamente contra a sociedade se impor diante as decisões alheias, eram capazes de prender os suícidas caso esse vivessem depois para serem presos. Aí me vem com outro clichê "Ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém"...me desculpem, mas enquanto esse alguém estiver dentro do corpo alheio, o dono do corpo tem o direito sim, e tenho dito. Ser contra tudo bem, proibir é outra história.

As pessoas são contra o aborto, mas são a favor ao total descaso com as crianças de rua. Não faz sentido.

Assuntos polêmicos nunca foram o ponto forte do blog, mas passamos um bom tempo para chegarmos a conclusões sobre as coisas a nossa volta, e quando ficamos finalmente em paz com elas, devemos dizer.

Para o aborto eu concluo...

Terça-feira, Julho 21, 2009

.memórias de um ex-aluno do colégio verde.

Acordava 6 horas da manhã, sempre correndo, sempre correndo, aquela calçada era sempre tão longa, os passos eram mais apressados quando a primeira aula era de química, o lendário do professor não nos deixaria mais entrar assim que o relógio batesse 7:05 e ainda tínhamos todas aquelas escadas para subir.
Entrava as 7 da manhã saia as 6 da tarde, quando não matava aula e mesmo assim, ainda não era hora de voltar pra casa, podíamos passar mais muito tempo ali na portaria jogando, não apenas conversa fora, mas teorias complexas, filosofias de vida dos tempos de descoberta, comendo o melhor pastel do mundo.
De manhã as companheiras de sempre, dos tempos de escola e artes circenses, me faziam rir quase todo tempo, com nossas recuperações em matérias exatas e nosso bom humor, nossas brincadeiras infantis, eram verdadeiros campeonatos de escravos de jó e de pular tartaruguinhas de concreto do estacionamento, isso quando não tentávamos subir árvores ou explorar os lugares mais remotos, era uma felicidade nada contida, escancarada posso dizer, nos ensaios no anfiteatro e nos picnics de aniversário, era uma pena ter nascido em janeiro.
A tarde um monte de meninas falantes, outdoors, jingles e muitas risadas com ela. E naquelas tardes aprendi que jamais faria nada relacionado a tudo aquilo e aprendi muitas coisas mais.
Ainda posso me lembrar de abraços matinais que valiam para um dia inteiro, dos seus cabelos loiros ao vento, de barquinhos em poças d'agua, dos banhos de chuva por vontade ou não, de um menino sentado sozinho em um canto e nossas conversas diárias, do amor, dos tapas na testa e do refrigerante que era apenas 1,70 mas vinha um bocado. Dadinhos, muitos deles e croissants de chocolate que me sujavam até as pontas dos cabelos.Nunca comi um pão na chapa mais gostoso.Tardes sentadas em um banco qualquer ou nos mastros, vendo a tarde morrer.
O horário do almoço era uma miscelania de coisas e historias, revezava os amigos de almoço e me alegrava com todos eles e as sextas, às vezes, era dia de comer pão com mortadela no shopping em frente, nunca vi memória mais eterna. Depois de escovar os dentes com as meninas no banheiro estilo retrô do bloco dois, era momento de deitar em frente ao bloco três ao lado dele, e dos amigos dele e de quem mais chegasse até o horário do bendito sinal, isso se não decidissemos ficar por lá mesmo ou em qualquer lugar do mundo que não fosse a sala de aula. A 'liberdade' que fascinava, mas sempre atentos aos 25%, é claro. Era a casa do amigo de pais viajantes, era o bar da esquina, era o jogo do disquinho e os supermarcados convidativos. Pouco dinheiro no bolso, muita intensidade nas mãos.
E os projetos culturais durante a semana de aniversário, que nos renderam até dinheiro uma vez e o dos amigos que rendiam tardes com pipoca de microondas assistindo Laranja Mecanica, a eles, que me ensinaram a esconder o que gostaria de comprar mas só poderia mais tarde por falta de grana, devemos ideas como essa.
Nas aulas de literatura, a professora mais excentrica nos ensinava, através de filmes e livros a entender de verdade coisas como o Carpe Diem, e eu às vezes quando paro, sempre lembro de suas palavras, é impressionante como algumas coisas marcam a gente assim.
Sobre as noites das externas...melhor deixar para outro texto ou nunca dizer.
Sentir o cheiro da noite era o que fazia sentido.
Não há nada para ser dito, alí, todos aprenderam a viver intensamente, um minuto de cada vez, nem surreal pode ser uma palavra boa para descrever.Talvez transcendental como descreveu alguem em um comentário anonimo.
E uma ou duas vezes a morte nos fez lembrar que tudo era tão efêmero, pra que tudo aquilo, pra que estudar pro maldito vestibular, tudo podia acabar naquela tarde. Nunca me esqueci de sentimentos assim.

Hoje tenho a plena consciencia de que, não importa quantas coisas grandes ou importantes façamos depois daquele lugar, quantas graduações teremos, em que boas universidades iremos estudar, viagens ao exterior, novos amigos, casamentos, filhos, não importa, boa parte de tudo que seremos nessas novas coisas, foi construida dentro daquele espaço antigo e verde, dentro daqueles tantos metros quadrados, dentro do nosso mundo particular.
Dias chuvosos, dias quentes, dias frios, quantos belos entardeceres eu não passei alí dentro, ao lado daquelas pessoas, tudo isso é pra sempre, de alguma forma através dos trejeitos, os gestos singelos, as expressões inventadas, a amizade e todas conclusões que tivemos muito tempo para chegarmos juntos.

No fim acho que deveria ter feito como um menino que conheço, deveria me recusar em escrever sobre a Ete, pois sempre vai faltar alguma coisa.



Não apenas alguma coisa vai faltar, mais muita coisa, muita.

Sábado, Julho 18, 2009

.Prazo de validade.

Há pouco uma amiga comentou que uma vez ouviu alguém dizer que namoro tem prazo de validade, na concepção da tal pessoa depois de dois anos expira a validade da relação, não dá mais, vira uma coisa insuportável e acaba.
Por dias, devido a últimos acontecimentos na vida de amigos, tenho me questionado sobre essas coisas, acho que cada casal tem a sua data de validade, muitos relacionamentos amorosos começam e terminam todos os dias, da mesma forma que nascem e morrem pessoas, e sempre vem gente dizer que se acabou não foi amor e essas ideias fixas, e eu mesma já escrevi por aqui uma vez, se for assim, quer dizer então que quem morreu nunca existiu? *nonsense*
Enfim, sempre achei impossível amar e não ser intenso, não tenho lá muitas experiências, só tive uma longa de alguns anos atrás, e não, não há mais dor, mas não nego que foi um puta amor forte.
Conversávamos, riamos, brigávamos, nos atracávamos e brincávamos de qualquer jogo, tolo que fosse, como o de bater nas mãos ou guerra de dedos todo o tempo que passávamos juntos, criticávamos a monotonia e o silêncio de outros casais, acreditávamos que se fosse para ser assim não tinha o porque estarmos juntos.
Eu até hoje não entendo os momentos frios e rudes de outros namoros ou casamentos, quando acontecia comigo, eu chorava e saia correndo, era infantil pra burro, mas para mim era inaceitável amar e ser frio ou rude, era como se o amor não mais estivesse alí e foi assim que veio o fim, foi isso que expirou nossa validade, antes nele, depois em mim, quando instalou-se entre nós uma frieza e uma monotomia compulsiva, sofri por mais um tempo mas sobrevivi e vivi coisas que não trocaria por mais tempo ao lado dele e não me arrependo de ter dito eu te amo todo dia e sempre, pra mim medo de mostrar o que sente é uma puta perda de tempo.
Não sei como é ter um relacionamento e não ser intenso e como tanta gente consegue manter-se por muito tempo desse jeito frio, é como aquela géleia que já apodreceu há tempos mas ninguém teve coragem de tira-la da geladeira, por comodismo ou preguiça, talvez os dois juntos.
Acredito que o modelo social em que vivemos amorteça os sentimentos, e acho monogamia muito hipócrita por parte de muita gente, mesmo que quando eu ame, não possa me imaginar praticando poligamia, tenho consciência que os outros podem e muito bem. Mudaria muitos detalhes se fosse a mesma pessoa no meu ontem amoroso. Eu prezo mesmo é pela liberdade.Cada um é cada um, mesmo dentro de um relacionamento.
Impressiona-me as pessoas que vivem em função de uma única pessoa e com aquele pensamento medíocre de passar pela vida apenas para casar-se, ter filhos e morrer, meu amor pela vida, por pessoas e pelas artes é tão grande que não conseguiria concentrar todo meu amor em uma só coisa novamente, acho humanamente impossível, prefiro projetar um universo dentro de mim com auxilio do mundo a viver projetando um universo no outro que pode ser desfeito no momento em que esse outro se cansa de você, já passei por isso e sei que causa uma das maiores dores do mundo, inimaginável impossível de ser transcrita em verbetes. É possível amar muitas coisas e pessoas sendo intenso com todas elas.
Já tive muitas outras paixões amorosas, mil platonicas, outras nem tanto, nunca mais namoros duradouros, acho que nem tenho auto-estima suficiente pra isso, mas se um dia acontecer de novo espero que este não seja um produto cheio de conservantes a mercê de datas de validade, tudo isso me soa plástico e condenável demais, que seja como um tipo de ser vivo, um animal ou uma árvore, que cresça enquanto der e se um dia tiver que morrer que morra. Morra sorrindo, lateralmente.

Sabendo que existiu, que existiu mesmo.

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♫♪ Stars - Your ex lover is dead ♫♪

Quinta-feira, Julho 16, 2009

."Meme" ou coisa que o valha.

"Meme", ou coisa que o valha.
O Caio me indicou para esse joguinho supimpa *porem hard*, e então fazer-lo-ei. ^^

Os próximos participantes que eu escolho: Ferdi, Luísa, Amanda, Iris e Osmar.

Missão:
Escolher um músico/banda para responder as questões.

Eu escolho Legião Urbana, banda do coração, da parte mais bonita dele.

1. Você é homem ou mulher?

"Meninas"

Meninos e meninas. (pergunta dificil...para se responder com uma musica, é claro ^^)




2. Descreva-se.

"Sempre precisei de um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou só sei do que não gosto."

Teatro dos Vampiros.


3. O que acham de você?

"Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria..."

Monte Castelo.


4. Como descreve seu atual relacionamento? (como não há um atual relacionamento, respondo em relação a um relacionamento do passado, no caso, o mais significativo)

"O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens..."

Tempo Perdido.


5. Como descreve o atual de sua relação?

-sem resposta-

6. Onde você queria estar agora?

"Acho que gosto de São Paulo
Gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião"

Meninos e Meninas

(Não conheço uma cidade com o nome de São João, mas mesmo assim, as outras três são cidades que gostaria de estar.(:


7. O que você pensa a respeito do amor?

"É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Porque se você parar
Prá pensar
Na verdade não há..."

Pais e Filhos

8. Como é a sua vida?

"O sistema é malz
Mas minha turma é legal
Viver é foda
Morrer é dificil
Te ver é uma necessidade
Vamos fazer um filme?"

Vamos fazer um filme.


9. O que pediria se tivesse um só desejo?

"Quem me dera
Ao menos uma vez
Provar que quem tem mais
Do que precisa ter
Quase sempre se convence
Que não tem o bastante
Fala demais
Por não ter nada a dizer."

Indios.


10. Escreva uma frase sábia. (?)

"Toda dor vem do desejo de não sentirmos dor."

Quando o sol bater na janela do seu quarto.

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Legião, sempre tem uma musica certa. Renato te amo muito, beijos.

Quarta-feira, Julho 15, 2009

.Diário de viagem alheio.

Marquei de me encontrar com o Sebastien, namorado da minha querida Annick, que esta fazendo uma grande viagem pela América Latina. Ele me ligou pela manhã falando em um francês mega rápido, tive que pedir que falasse mais devagar até que conseguimos marcar de nos encontrarmos em frente ao Masp. Desligamos.
Ao desligar me dei conta de que não sabíamos como éramos, como faríamos para nos encontrar?

Annick estava online, ufaaa, e me passou a foto do passaporte do moço, acho que seria o suficiente e lá vou eu fazer a viagem abc-paulista. Cheguei 15 minutos atrasada *pra variar* e a fila para entrar no Masp estava gigantesca, terça-feira lá é sempre lotado, gratuidade é o que há!

Pois bem, percebi que ter visto a foto não era nada suficiente, de repente todos podiam ser Sebastien, analisei a fila e todas as pessoas e comecei a me perguntar "Será esse? Quem sabe esse? Mmmm, esse deve ser!" *terrível*
Entrei na exposisão do Vik Muniz, para procurar por eles, já havia visto a exposição na semana anterior, e vale muito a pena, diga-se de passagem, o cara é um gênio em minha humilde opinião para artes plásticas.

Dentro do museu foi ainda mais hard encontra-los, desisti e fui me sentar na calçada desesperançosa, um hippie me vendeu suas poesias por um real e disse que uma delas ele dedicava pra mim, a poesia estranhamente falava de coxas e jatos fabulosos, ainda bem os franceses, Sebastien e sua companheira de viagem Marion, apareceram e intorromperam a leitura, como me identificaram não sei, mas me acharam e estavam na verdade uma hora atrasados, pediam desculpas freneticamente e me explicaram o motivo do atraso, mas eu não entendi, falavam muito rápido de novo. Contente por te-los encontrado não me importei mesmo.

Queriam comer alguma coisa então os levei na comedoria do Sesc, eles eram muito amigáveis, agradeceram muito por te-los levado lá, um pequeno lugar tão genio. Voltamos pro Masp, passamos pelo parque do Trianon, e tentamos entrar no museu, porem a bilheteria já havia fechado, não nos deixaram entrar, mesmo eu insistindo com a segurança e tudo, não deu *droga*

Marion é arquiteta e se apaixonou pela Paulista, Sebastien é engenheiro e se apaixonou pelas àrvores paulistanas.*não que exista lá muita ligação entre engenharia mecanica e àrvores*

Terminamos o passeio na Paulista visitando a sessão de artes da Livraria Cultura, sempre bom dar uma volta naquela livraria, eu só não posso passar pela parte de filmes, sempre gasto o que não deveria, porem aumento minha coleçãozinha. ^^

Seguimos caminho para a Cinemateca São Paulo lá na Vila Mariana, lugar bacana, fomos assistir a um filme da amostra de comemoração a Nouvelle Vague, ou seja era um filme francês, e estava sem legenda, bacana!*ironia* Nos encontramos com a Isa lá, e eu e ela não entendemos nada e o filme não era dos melhores do mundo, saímos no meio e fomos jantar comida japonesa na Liberdade. Restaurante maluco, éramos os únicos não orientais do recinto, Marion pediu sushi, eu, Isa e Sebastien pedimos uma sopa com umas massas boiando dentro, ovos de codorna e tudo mais, não fomos lá muito bem atendidos e eu não entendo nada de comida japonesa, nunca me senti tão ignorante na vida, talvez só nas aulas de matemática do colégio. Eu e a Isa riamos da nossa, principalmente a minha, ausência de habilidade com as técnicas japonesas de gastronomia.

Terminou no "Japão" meu passeio com os franceses quase que ao acaso, nos despedimos, tinha que voltar pra São Bernardo, era quase 10, eu ia me ferrar.:)

Semana passada havia feito passeio semelhante com pessoas diferentes, Amanda e Chenny, e essa capacidade de fazer novas todas as coisas velhas é muito importante mesmo. Cada dia um novo olhar, um novo olhar alheio.

Eu sinto muitos sentimentos alheios, não só vergonha.

Segunda-feira, Julho 13, 2009

.Eu pra presidente!.

Se eu fosse presidente um dia, subiria no palanque e em alto e bom som diria :



Pronto, nada mais seria necessário. Nada mais.

Foto por Jennifer Domizi. Museu da Língua Portuguesa de São Paulo.