Quinta-feira, Outubro 07, 2010

.do inverbalizável.

Tudo se revelava em um verdadeiro ensaio sobre a loucura. Da raiz a ponta do cabelo tem mais escamas soltas que se pode imaginar. E na incapacidade das coisas velhas e rotas ainda se consegue construir castelos de areia impermeáveis. Se você vem dormir ou não, eu engulo a seco, enquanto dona Julia tece aquele cachecol para o inverno que começa a se desenrolar de forma timida em nossas cabeças . Do plano dos sonhos ao plano dentário eu idealizo, eu realizo,eu já vejo as flores do próximo casamento ou funeral, pois são flores, apenas.
Ele desenhava acidentes automobilisticos em um pedaço de papel, esperando que ela achasse graça, e se não achasse não importava, ele só queria estar alí, a estrada seguia para cidade de castelos feitos de pedras e afrescos com detalhes em ouro, ele não quis ir, ficou alí ao lado dela, rindo do frio e do calor das palavras tantas. Pensando se um dia doença degenerativa da memória os atacasse, aquela lembrança estaria entre aquelas que lutariam para não se esquecerem nunca, mas não verbalizaram nada disso, pois não era possível, de novo.
Tinham dois corações plantados alí, e a chuva que vinha lavava o vinho derramado nas coisas em vão, ela assistia as duas meninas dando as mãos enquanto andavam em suas bicicletas roxas, e no fundo da cena, tocava uma canção de sinos de alerta enquanto os dois coracões davam frutos em preto branco e sepia.
O vendedor de tamborins cantava em uma língua irreconhecivel, mas a beleza de suas palavras inebriava até mesmo os mais ceticos na sala decorada com enfeites natalinos do ano retrasado. Atravessavam fronteiras sem serem visto precisamente por sua capacidade de nunca dizerem muito e nunca chorar. Ela chorava.
E ele secou suas lágrimas, depois não disse mais nada...
...e dos sentimentos inverbalizaveis já se perderam as contas.

3 dizem que diz:

Luísa disse...

Esse é, de longe, seu texto mais bonito.
E eu te amo, e amo cada palavra escrita por voce :')

Caio Delcolli disse...

As bicicletas roxas não negam o tom autobiográfico. Mesmo se não fosse, tudo bem, o texto é foda.

KEEP WRITING, BRO!

João disse...

Uau.